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TEXTOS E FOTOS
Rosa Moura
Johny Genvensis

WEB
Hilton Benke

 
Chile Sur

Valle de la Muerte


Desde Hito Cajón, são 45 km até San Pedro de Atacama. A nostalgia é imediata ao deixar a Reserva Eduardo Avaroa. Em poucos minutos, com pequena parada para trâmites fronteiriços (quando confirmamos que para sair da Bolívia pela Reserva se paga, sim, mas um pouco menos se você não vem de Uyuni), alcançamos a carretera internacional, completamente asfaltada e com grande movimento para Salta, Argentina.

Iniciamos uma descida ininterrupta até os 2.400 m, e cada vez mais a paisagem foi se tornando desértica. Eram os ares do Atacama: planície central mais árida do mundo. O micro ônibus que nos pegou na Reserva estava sendo conduzido por um sujeito que fingia estar dormindo na direção, trafegava a 20 km por hora, e tinha jeito de louco! Metade dos passageiros - mochileiros de todas as partes do mundo e alguns turistas que vêm de San Pedro só para conhecer a Laguna Verde - entrou no esquema do motorista e se divertiu prá valer. Outra metade ficou indignada. O casal que viajou conosco pelo Salar ficou irado, mas no fim, pudemos rir do fato.

San Pedro de Atacama: um oásis

Com pouco mais de mil habitantes é o que se pode chamar de uma memória colonial no deserto. Construções de adobe (barro) com o interior voltado para dentro, fazendo com que a cidade pareça vazia e murada: são paredes e mais paredes com poucas janelas, pequenas portas e distantes umas das outras, mas se adentradas, revelam interiores arborizados, com varandas, caramanchões e canteiros, mesas de comer debaixo de "algarobos" - árvores frondosas cuja vagem serve de alimento para o gado e, atualmente, é transformada em uma rica farinha, que vem fazendo a novidade exótica das sobremesas de San Pedro. A cidade é um verdadeiro oásis. Mas para isso, um sistema controlado de irrigação percorre toda a área central. São canaletas paralelas às ruas, passando pela frente das casas (algumas fazem pequenas pontes para cruzar a vala), por onde corre uma água barrenta que vem das montanhas. Se chove, o que é raro, a circulação é fechada, e dirigida para outro povoado.

Patrimônio cultural e arqueológico

Dessa cidade colonial, permanecem vestígios importantes, como a Igreja de San Pedro (século XVI), na praça principal, restaurada, com telhado feito em cactus e um muro branco típico. O cactus cobre muitas construções e é usado em portas e janelas, compondo um detalhe bem local. Da frente da igreja, olhando em direção às montanhas, se vê o Licancábur que, em dias de céu azul, é o principal cartão postal urbano de San Pedro. Algumas construções com arcos, no entorno da praça, como a Municipalidad, também lembram a presença dos espanhóis, que exploraram reservas minerais presentes no deserto - a maior mina de cobre do mundo, a céu aberto, se encontra ali perto, em Chuquicamata, assim como o maior depósito de lítio, no Salar de Atacama, além de uma indústria ativa de salitre e iodo. Ruínas e testemunhos arqueológicos contam histórias ainda mais antigas, de tempos em que a região fez parte do império inca no século XV. Se pudesse ser comparada com algum lugar no Brasil, diríamos que San Pedro lembra Paraty, só que no mar deserto.

Além da praça, o point é uma rua principal de comércio e bons restaurantes, postos de internet, agências de turismo e muito turista passando por entre garçons que tentam convencê-los ao menu do dia. São pontos de encontro também o centro de informações turísticas, o museu arqueológico Padre Le Paige (cerâmica, múmias, tecidos etc...), e o centro artesanal (uma rua exclusiva de tendas de artesanato), próximos à praça. Se durante o dia os visitantes saem para os passeios, à noite o encontro é nessa parte da cidade, para onde aflui uma população jovem e bem descontraída, não só de viajantes como de moradores. Ficamos amigos de um garçom (Fernando, do La Staka) que nos contou que trabalhar em San Pedro é muito diferente de trabalhar em outras áreas turísticas do Chile. En San Pedro, você pode usar tatuagem, piercing, brincos, que são pouco aceitos em outras partes. Essa abertura faz de San Pedro a opção dos alternativos.

Cordillera de Sal e Valle de la Muerte

Para passeios, saindo da área central, há movimento de todo tipo em todas as direções, pois há muito o que se ver perto de San Pedro. São vários roteiros e várias escolhas de deslocamento: a pé, de bicicleta (que são facilmente alugáveis), de carona (e os chilenos são tão cordiais, que até oferecem), nas vans de turismo ou carro próprio. Não há transporte coletivo na direção dos roteiros recomendados. Escolhemos passar a primeira tarde explorando os detalhes da cidade e para o dia seguinte contratamos um pacote que incluía a Cordillera de la Sal, Valle de la Muerte, Valle de la Luna (U$ 5,40 mais U$ 2,70 da entrada no parque), com direito a ver o por do sol da grande duna. Esse percurso começa no meio da tarde, momento em que San Pedro se esvazia (pela quantidade dos que saem nessa direção e pela sesta dos que permanecem).

Saímos para a Cordillera de la Sal e já ficamos impressionados com a sua formação em encostas esculpidas pela erosão, com inusitadas formas e cores. Dos pontos panorâmicos se abre ampla vista para o Salar de Atacama, nevados andinos, particularmente Licancábur, e o vale que forma o oásis de San Pedro. A poucos quilômetros da cidade, em plena Cordillera, entramos no Valle de la Muerte, encravado nas mesmas formações esculpidas, com tonalidades avermelhadas e manchas brancas. Saltamos do veículo e descemos por um vale silencioso e quente, onde é completa a sensação de impotência diante da magnitude da terra. O veículo nos esperou na outra ponta da caminhada de uns 45 minutos.

Valle de la Luna e o ritual do poente

De lá, retornamos à estrada que corta a Cordilleira, na direção de Calama, e logo entramos no Valle de la Luna (a 17 km de San Pedro), uma depressão de 500 metros de diâmetro, com solo salino (com cristais que parecem neve), rodeada por morros com formações exóticas lembrando o solo lunar, algumas "testemunhos" de paisagens anteriores, como as Três Marias, além de cavernas de sal e da grande duna, onde há um rito diário no por do sol. Estava perto de entardecer quando começamos a subir por uma lateral da duna, em fila indiana, controlados discretamente por fiscais do parque, que impedem qualquer atitude que comprometa a paisagem natural, como escorregar pela encosta, por exemplo. De uma ponta até a outra, seguimos em caminhada pela crista da duna, por uns 300 m, sob um forte vento carregado de areia (sob a luz do sol, as silhuetas formavam a imagem de beduínos cruzando o deserto). Hora em que voa tudo que estiver solto: bonés, agasalhos, óculos... E não tente ir atrás: o guardinha acompanha tudo de binóculos e apitará na certa.

Na ponta oeste da duna, uma encosta rochosa íngreme torna-se a arquibancada para os grupos que vão chegando e se acomodando, cuidadosamente, à espera do poente. Momento de descarregar a adrenalina da subida, da caminhada no vento, de tomar o que sobrou de água, e curtir um sol que se põe lento, tingindo ainda mais as cores avermelhadas da Cordillera. Enquanto se espera, se ouvem todas as histórias, se faz amigos, se demarca novos roteiros. No poente, fotos e mais fotos, beijos, muitos beijos, deslumbre total. Mal se põe o sol e a volta refaz o mesmo rito: uma fila paciente percorre a crista da duna e desce, localizando seu veículo de transporte, numa fila de dezenas de carros, micros, vans e bicicletas, que se alinham na estrada do parque. Um ritual que se repete todos os dias e que vale fazer parte dele uma vez!

Pukará de Quitor

No nosso terceiro dia na cidade, decidimos ir a pé ao Pukará de Quitor (entrada U$ 1,8), fortaleza do século XII, numa encosta com vista para os nevados e que reserva ângulos notáveis do Licancábur. São apenas 3 km da cidade, passando por um vale agricultado e por dentro de vários meandros do rio San Pedro. Logo que pegamos o caminho, uma caminhonete ofereceu carona e nos levou na carroceria, junto com menino que vestia a camiseta da seleção brasileira. Eram de Antofagasta e visitavam a região pela primeira vez. O vento da caminhonete em movimento e os respingos toda vez que se cruzava o rio não nos deixaram perceber até ali o quanto é difícil caminhar no deserto. A visita ao Pukará nos fez subir a encosta elevada, com imagens inesquecíveis do vale e dos nevados. Passamos por entre ruínas construídas com a técnica de terraços (ou em degraus), que mostram vestígios de uma ocupação permanente (não apenas estratégica e defensiva), dado as características domésticas e coletivas dos recintos. Na volta, o grupo se dividiu. Uns exploraram mais o Pukará e retornaram pelo mesmo vale; outros seguiram em direção ao Valle de la Muerte e retornaram pela estrada. Estava entre esses. Se na tarde anterior a sensação de estar em meio a esse vale foi de impotência, perto do meio dia, o silêncio, o calor e a imensidão foram ainda mais marcantes. Logo atingimos o asfalto e em poucos minutos estávamos chegando à cidade. Coincidentemente, almoçamos num restaurante chamado Quitor, muito simples, que fica no início do caminho para o Pukará. O menu do dia incluía arroz de quínua com cordeiro assado e vagem. Também inesquecível!

O que mais há para ser visto

Quando deixamos a Bolívia, não suspeitávamos que ainda iríamos nos deslumbrar com outras paisagens. Os arredores de San Pedro nos mostraram que a beleza natural pode surpreender. Porém, outros atrativos da região ficaram para uma próxima vez, como: El Tátio (geisers), a 4.320 metros de altitude, aos pés do vulcão Tátio, no mesmo campo geotérmico do Sol de Mañana, onde, ao amanhecer, afloram jatos de vapor desde os poços de água fervente; os Baños de Puritama, poço termal administrado pelo Resort Explora; a Reserva Nacional Los Flamencos, setor Soncor, com as lagunas de Puilar, Chaxa e Barros Negros, interconectadas pelo rio Burro Muerto, importante centro de nidificação do flamingo andino; as lagunas altiplânicas Miscanti e Miñique, a mais de 4 mil metros de altitude, num percurso que bordeja o Salar de Atacama; e o próprio Salar, maior depósito de sal do Chile, com 3,5 km2 (até parece pequeno depois de ter passado por Uyuni), a 2.300 m de altitude; além dos vilarejos de Toconao (agrícola, com a igreja e o campanário de São Lucas, artesanato em pedra, e petroglifos da Quebrada de Jerez, longo desfiladeiro por onde correm as águas que regam Toconao), Peine, por onde passava o antigo Caminho do Inca e a rota dos conquistadores espanhóis (casas de pedra, igreja de São Roque, século XVIII, Cocha del Peine, piscinas construídas entre rochas, e Peine Viejo, berço da cidade desde tempos atacamenhos, abandonado por motivos desconhecidos em 1650, cujo conjunto arquitetônico foi declarado Monumento Nacional, e as Ruínas de Tulor, povoado com mais de 3 mil anos, que até há pouco se encontrava sob a areia e que vem sendo recuperado, dentro de um projeto de pesquisa, e aberto à visitação.

Subir o Licancábur

As agências de turismo locais fazem expedições de 2 ou 3 dias para o Licancábur, via Laguna Verde, na Bolívia. São oferecidas por U$ 90, incluindo transporte, alojamento e alimentação. E é possível em qualquer época do ano.

Onde ficar

Para quem chega da Bolívia, tudo parece muito caro, mas há uma diversidade de alojamentos que podem ser reservados por internet (escolhemos o residencial Chiloé, U$ 11, compartindo banheiro e sem incluir café da manhã), ótimos restaurantes e comedores mais simples, e acessíveis banquinhas de sanduíches nas esquinas. Na reserva dos passeios, com tantas agências disponíveis, há ampla possibilidade de negociação de condições e preço.

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