A formação do relevo do sul do Chile se configura em lagos e montanhas, a maior parte delas constituída por vulcões ativos, muitos em plena atividade. Mesmo que alguns pareçam dormentes, não deixam de manifestar seu pulsar nas centenas de termas espalhadas pela região, algumas com temperaturas insuportáveis ao corpo humano. Termas que sempre são ladeadas por rios geladíssimos, que servem para o mergulho (e choque térmico) dos corajosos. Rios pedregosos, em algumas partes com leito largo e seco, à espera do degelo das montanhas na primavera.
Além das águas quentes e dos rios de corredeira leve, os lagos são personagens que se tornam companheiros do viajante na maior parte dos percursos. Distinguem-se pela origem (alguns, da erupção de vulcões, como o Caburgua, com deságüe subterrâneo, no Ojos de Caburgua; outros, pelos sedimentos nos degelos dos glaciais, ou morenas, que funcionam qual diques, como perfeitamente mostra o Villa Rica), pelo formato, tamanho, cor, temperatura, mas todos servem de espelho aos narcisos vulcões: no Villarica, reflete-se seu homônimo, do Llanquihue, majestosamente se avista o Osorno, o Puntiagudo e, mais distante, o mais alto desse setor cordilheirano, Cerro Tronador (3491m), já na Argentina.
Aliás, o Ojos del Caburgua (foto acima) merece um pequeno destaque, tamanha beleza do local. Como suas águas nascem diretamente do subsolo, possuem uma pureza impressionante, que aliada as rochas locais, fazem com que seus pequenos lagos próximos a sua nascente adquiram uma coloração azul esverdeada impressionante!
Alguns lagos interligam-se por canais delgados, compondo seqüências em desnível suave, até encontrar o mar - caso mais notável nos "sete lagos" (Calafquén, Pellaifa, Neltume, Pirehueico, o argentino Lacar, Panguipulli e Riñihue), próximos ao Villarica, que fazem o deságüe do rio argentino Huaún no Pacífico, situação de percurso internacional das águas que segue se dando mais ao sul. Outros lagos foram separados e bloqueados pela erupção de
vulcões, como aconteceu com o Osorno, que se interpôs ao curso do rio Petrohué, desviando suas águas, que antes buscavam o Llanquihue, para Ralún.
A estradinha que dá acesso ao lago, acompanhando o rio tem marcas recentes e impressionantes do caminho do degelo, chegando a ter partes temporariamente bloqueadas ao trânsito de veículos comuns. Esse vulcão, formando uma barreira, também deu origem ao lago de Todos os Santos, cujo verde esmeralda é sua exclusividade.
Cruzar o lago, num dia limpo, permite as mais fantásticas visões dos cones nevados, com jogo de cores que passa pelo esmeralda, anil e branco brilhante. Esse verde esparrama-se pelo rio Petrohué, que num ponto salta entre rochas de lava vulcânica cristalizada rapidamente, os Saltos de Petrohué, e alcança o mar pelo estuário e golfo de Reloncavi, outrora também um lago glacial.
Nesse estuário, a produção da truta salmonada e salmão é abundante. Cochamo, vilarejo em sua borda, é o lugar certo para se saborear esse peixe rosado, junto com mariscos da região. De lá, se tem uma visão privilegiada do Yates (2111), que se reflete nas águas do estuário, e se pode avistar o traçado de um novo roteiro: o da Carretera Austral, com mais termas, lagos e
vulcões, num ambiente mais gelado e menos colonizado.